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Entrevista a
Júlio Cirino
23-11-2006 |
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A
opinião do Técnico Nacional do sector de
Lançamentos da FPA
JÚLIO
Sarabando CIRINO da Rocha nasceu a 04 de
Janeiro de 1948 na Gafanha da Nazaré. Tem
1,80m de altura e pesa 78Kg.
Frequentou
a Escola Primária da Chave, na Gafanha da
Nazaré, depois a Escola Industrial e
Comercial de Aveiro, onde concluiu o Curso
de Carpinteiro Marceneiro; passou depois
pela Escola Industrial de Vila Nova de Gaia,
onde concluiu o Curso de Desenhador de
Construção Civil; enquanto cumpriu o serviço
militar, no Regimento de Engenharia nº1, em
Lisboa, frequentou o Curso de Construtor
Civil na Escola Industrial Machado de
Castro.
Começou por
ser Desenhador na Câmara Municipal de
Aveiro, sendo até Dezembro de 1996
Desenhador-Projectista nos Serviços
Municipalizados de Aveiro, para onde
transitou após o cumprimento de serviço
militar. Daí em diante é Treinador Nacional
de Lançamentos.
Tem o curso
de Formador da IAAF; trabalhou durante
alguns anos com as equipas cubana e alemã de
lançamentos, além do trabalho conjunto com
os melhores treinadores do mundo em quatro
Jogos Olímpicos, vários Campeonatos do Mundo
e da Europa.
Na sua
juventude foi atleta do Clube Desportivo de
Estarreja, do Futebol Clube do Porto (ambos
em meio-fundo), ajudando ainda, como atleta,
o Clube dos Galitos de Aveiro (saltos). Foi
campeão e recordista nacional escolar de
juvenis na distância de 1000m e campeão
nacional júnior de 1500m obstáculos
(distância que então se corria) e recordista
do Norte em várias distâncias, quer ao
serviço do Estarreja quer do Futebol Clube
do Porto – na altura ainda não existia a
Associação Distrital em Aveiro.
Mais tarde
treinador e investigador das técnicas e
métodos de treino. Foi treinador do Clube
Desportivo de Estarreja, Grupo Desportivo da
Gafanha, Galitos de Aveiro e de atletas como
Manuel Rocha, Paulo Pinhal, Luís Pinhal,
António Salvador e Teresa Machado – entre
algumas centenas de outros. Em 1988,
escreveu e publicou o livro: “O Corredor de
Meio Fundo”.
Em finais
deste ano, início do próximo, o IDP vai
editar um livro seu, intitulado "Fundamentos
Gerais do Treino para Lançadores", e tem
outro quase concluído em parceria com os
prof. Renato Carnevali e Raimundo Fernandez,
a que pensa dar o nome de "O Treino de Alto
Rendimento em Lançamentos".
Está ligado
ao atletismo há 44 anos! |
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AAA – Recorda-nos o
tempo em que eras atleta.
Júlio Cirino (JC)
- Naturalmente que tudo era bem
diferente. O Futebol Clube do Porto, o
melhor clube do Norte nessa altura, apenas
nos pagava as viagens de eléctrico para
treinos e competições, além de um cházinho
de absinto, flor de laranjeira ou de casca
de limão nos meses mais frios do Inverno. E
que bem que aquilo nos sabia.
Já treinávamos 6 dias
por semana. Os nossos treinos consistiam em
fazer footing rápido, normalmente entre 20 e
30'. Só ao fim-de-semana fazíamos 40' num
terreno escabroso que circundava uma capela
existente nas proximidades do Estádio das
Antas.
Uma vez por semana
fazíamos séries de 100, 200 ou 400m,
normalmente 10 repetições. Às vezes, nos
100m, íamos até às 12-15, mas muito
raramente. O intervalo nos 100 metros era de
1' e nos 200 e 400, penso que 1'10".
Fazíamos mais um dia
de séries, utilizando distâncias como 2000,
1500 e 1000m. Por exemplo, um dos treinos
consistia em fazer 3x1000m, com 3' de pausa
entre repetições, fazendo tempos que
rondavam os 2'50". Isto no Inverno.
No Verão, como eu era
corredor de 1500m, substituía as séries mais
longas por exemplo por 3x400m para 56-57",
com 10' de pausa.
Nos fins-de-semana em
que vinha a casa, saía da Gafanha a correr
até ao Farol da Barra, onde escondia os
sapatos debaixo de um tufo de ervas secas.
Depois, a subir e a descer, corria descalço
pelas dunas fora até à piscina existente a
seguir à Costa Nova, regressando pela borda
do mar, com o vento sempre de frente e com
as ondas a fustigar-me as pernas para me
endurecer ainda mais o corpo e a mente. Isto
de Verão ou de Inverno. Depois, eram mais
2Km até casa para desentorpecer.
Raramente, ao Domingo,
dava a volta à Vagueira num percurso de
cerca de 20Km. E assim andei até ingressar
na tropa...
AAA – Nos anos setenta e início dos anos
oitenta Aveiro-concelho tinha vários clubes.
Hoje está reduzido a um só. O que te ocorre
dizer sobre isto.
JC: Dantes havia mais amor às coisas. Os
tempos eram outros. As pessoas eram mais
livres e, por isso, mais felizes. Ainda não
era conhecido o "papão" chamado stress. Hoje
não temos tempo para nada...
AAA – Nos anos oitenta tínhamos “meia dúzia”
de provas de estrada – cada uma era uma
festa – mas tínhamos dezenas de atletas a
menos de 14 minutos aos 5000m por exemplo.
Agora … O que pensas sobre isto?
JC: Mais um produto do estilo de sociedade
em que nos inserimos. Como planificar uma
época se há atletas que correm ao sábado, ao
domingo de manhã e ao domingo à tarde?! Os
atletas assim nem chegam a recuperar de umas
provas para as outras, acabando por pagar
cara a sua ambição.
Agora não
se corre só pelo prazer de correr; corre-se
também para ganhar o dinheiro suficiente que
nos permita viver um futuro mais desafogado.
AAA – És um homem com trabalho de
investigação na área dos métodos e técnicas
de treino e planificação desde há longo
tempo. Qual é a tua opinião sobre os
conhecimentos dos treinadores portugueses em
geral e os aveirenses em particular.
JC: Os problemas dos treinadores
portugueses são comuns. Por isso, não valerá
a pena fazer distinções entre aveirenses e
de outras regiões. Em qualquer parte pode
haver treinadores bons, treinadores medianos
e maus; como em tudo na vida.
Em Portugal
há cinco ou seis treinadores de lançamentos
de muito bom nível. Poderiam, se essas
condições lhes fossem proporcionadas,
conseguir excelentes resultados em qualquer
parte do mundo onde trabalhassem. Estes são
os mais humildes; os que não tiveram
acanhamento em mostrar onde se sentiam menos
seguros. Estão a avançar.
Outros há
que ignoram a máxima: "todo o treinador que
julga saber tudo pode ser muito prejudicial
ao atleta". É por essa razão que alguns
resultados ficam muito aquém das reais
possibilidades dos atletas que treinam.
Estes
treinadores trabalham no isolamento, não
participando em acções de formação que
tiveram como prelectores homens como Anatoly
Bondartchouk, Renato Carnevali e outros, nem
participaram no Curso de Treinadores do 2º
Grau da FPA para a área dos lançamentos.
Como parece que o saber ocupa lugar, se já
sabem quase tudo já não poderão aprender
muito mais?! Cristalizaram... |
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AAA –
Aveiro não tem muitos treinadores
vocacionados para lançamentos. Como
Treinador Nacional de Lançamentos e
aveirense, o que pensas e sugeres.
JC: Treinar lançamentos não é para todos!
Relativamente ao grau de dificuldade de
aprendizagem, a seguir à patinagem
artística, à ginástica desportiva e ao
ballet, aparecem os lançamentos por esta
ordem: dardo, disco, martelo e peso.
Um
treinador de lançamentos necessita dominar
perfeitamente a Planificação e a Metodologia
do Treino, o Treino da Força e ter os
conhecimentos mínimos de Biomecânica que lhe
permitam dominar a técnica na arte de
lançar.
Como há
pouco disse, pode haver bons treinadores em
qualquer parte. Basta que haja interesse e
disponibilidade de tempo que lhes permita
dedicarem-se integralmente aos lançamentos.
Aqui não pode haver mistura com outras
disciplinas, porque um lançador exige
correcções técnicas imediatas e constantes.
Se uma
pessoa não pode dedicar-se a tempo pleno aos
lançamentos, está a facultar a possibilidade
aos seus atletas de "treinarem os erros" em
vez de treinarem uma técnica correcta. E
isto nunca pode acontecer numa disciplina
tão difícil como esta.
Não vale a
pena andar a "pescar" treinadores para os
lançamentos. Já vi que não resulta! Devemos
é estar atentos àqueles que vão despontando
e apoiá-los de imediato.
Neste
aspecto o Sector de Lançamentos da FPA
tem-se dedicado muito aos novos treinadores,
procurando formá-los, e informá-los, visando
o aprofundamento dos seus conhecimentos, o
que leva à possibilidade de se conseguirem
bons resultados ao nível internacional a
médio prazo.
AAA – Projectos pessoais: para o atletismo
nacional.
JC: A estratégia há muito está definida
pelo Sector de Lançamentos, em colaboração
com os treinadores mais representativos. O
grande problema reside no facto de não
conseguirmos tirar partido do potencial
físico existente em Portugal. Todos sabemos
que o atletismo não garante o futuro a
ninguém, por melhor que o atleta seja.
Por isso, a
partir de certa altura a maior parte dos
atletas opta pela sua carreira profissional.
Depois os resultados não poderão ser aqueles
que deixavam adivinhar.
Enquanto a
situação monetária do país não se
reequilibrar, apenas podemos esperar que de
tempos-a-tempos apareça alguém que possa
dedicar-se a tempo pleno aos lançamentos.
Caso contrário, não haverá estratégia que
nos possa guindar a resultados de relevo no
plano internacional.
AAA – Para quando um regresso “a casa”? Que
projecto te faria trabalhar em Aveiro?
JC: A minha "casa" é o atletismo, em
qualquer local onde me encontre. Sempre fui
bem recebido. Neste momento, além do apoio
que dou no plano nacional, trabalho com
alguns jovens aveirenses e espero que a
curto prazo o resultado do nosso esforço já
tenha alguma visibilidade.
Portanto, quem nunca se ausentou não precisa
regressar...
AAA – Se tens algo mais a dizer tens agora
oportunidade.
JC: Gostaria
de agradecer às Associações regionais o
terem feito chegar o "Manual Didáctico do
Treinador de Lançamentos" aos seus
treinadores mais influentes. Este documento
tem 263 páginas e foi entregue em "CD" na
Assembleia da FPA, em Novembro de 2005, em
Alcanena.
Mas outras Associações há que ainda não o
fizeram, impedindo que este documento chegue
ao conhecimento dos interessados!!! Por tal
motivo estão a actuar contra si próprias,
uma vez que trabalhos práticos sobre
lançamentos como este não existem muitos. De
uma coisa estou certo: ninguém actuou por
mal. O "CD" foi arquivado para "segundas
núpcias", sem ninguém o ter sequer
consultado para ver do que se tratava.
Apelo, mais uma vez, à sua divulgação.
Mas nem só algumas Associações falharam. Há
treinadores que, possuindo o "Manual", ainda
não tiveram tempo de o ler. É por isso que
continuam a fazer aquilo que sempre fizeram.
Se as coisas não existem, "aqui d'el-rei"
que não existem. Se existem, são votadas ao
esquecimento! Mas isto não me admira porque
são coisas próprias do ser humano...
Que ninguém ignore que um bom treinador "tem
sempre a mente aberta a trezentos e sessenta
graus" para acolher o que mais lhe interessa
daquilo que lhe vai chegando do exterior. Se
alguns dos nossos treinadores fossem um
pouco mais cuidadosos neste aspecto com
certeza que mais resultados com alguma
expressão internacional já teriam aparecido.
Para terminar resta-me
agradecer à AAA a oportunidade que me deu de
falar a quem estiver interessado em ler
aquilo que eu penso sobre os lançamentos e
do atletismo em geral.
AAA - Obrigado, Cirino, por partilhares connosco um pouco do
teu tempo.
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© 2005 José
Eduardo |
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