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Entrevista a Solange Jesus - ADERCUS
03-10-2005 |
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A
opinião de uma jovem promessa do atletismo
nacional
Solange Jesus tem 18 anos (nascida em 1987)
e é atleta da ADERCUS. Campeã Nacional de
3.000 M/Juniores participou recentemente no
Europeu de Juniores, na Lituânia, onde
obteve a sua segunda melhor marca do ano.
Distinguida pela Associação de Atletismo de
Aveiro como Atleta do Ano, aceitou dedicar
algum do seu tempo a esta breve entrevista
para partilhar um pouco da sua experiência
de atleta.
AAA - Como é que a
Solange surge no Atletismo e no Clube que
representa (ADERCUS)?
SJ: Há cerca de dez
anos atrás, comecei por correr em provas de
Desporto Escolar e fui ganhando…passado
algum tempo o meu padrinho perguntou-me se
eu queria ir para um clube, havia dois à
escolha, a ADERCUS e a ADREP. Acabei por
escolher a ADERCUS e até hoje com satisfação
represento este Clube.
AAA - Quais as principais razões para os
resultados que tem vindo a realizar, tanto a
nível de cross como de pista?
SJ: Sem dúvida fruto de muito trabalho, não
estaria ser sincera se o negasse. O
Atletismo ensinou-me que não há guerras
fáceis, portanto, tenho que seguir todas as
indicações dos meus treinadores. Além disso,
não existem milagres, ou se treina a sério
ou não chegamos a lado nenhum.
AAA - A seu ver, o Clube que representa
tem-se esforçado para o enriquecimento de
infra-estruturas?
SJ: Sim, e muito. Neste momento temos um bom
local para os treinos específicos, a Pista
do Campo de Futebol de Oliveira do Bairro.
Permite-nos tirar tempos das séries, etc,
coisa que antigamente, quando treinávamos
nas ruas da Serena, não nos era possível,
devido ao facto de não sabermos bem a
quilometragem que fazíamos e também porque
as ruas estavam esburacadas…
Mesmo assim, nós atletas e o atletismo
poderíamos estar melhor se não fossem as
politicas…prometem e nunca cumprem… |
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AAA -
Considera que o nosso Distrito está bem
equipado para a prática da modalidade? O que
seria necessário para melhorar as condições
de treino dos nossos atletas?
SJ: Na minha opinião muitas coisas poderiam
ser melhoradas. Para as competições sabemos
que a Pista da Universidade é muito ventosa,
não permitindo fazer boas marcas nos
distritais, nem aos atletas de fazer melhor,
pois é muito raro conseguir um dia sem
vento. Ainda bem que a nova Pista do Luso
tem um cenário um pouco diferente… mas, por
outro lado, fica bastante “deslocalizada”,
levando outros Clubes a lamentarem-se deste
facto.
AAA - Considerada das melhores atletas de
Meio-Fundo receberá com satisfação o apoio
da “família” que é o Atletismo. Tanto
sucesso passará certamente pelas condições
que lhe são disponibilizadas. Fale-nos do
seu treino, treinador e apoios. Qual a chave
do êxito?
SJ: Aprendi também que o Treino deve ser
encarado de forma mais descontraída e não
como um momento de sofrimento. Os meus
treinos são sempre feitos em harmonia, o meu
grupo de trabalho é muito unido e há um
grande espírito de entre-ajuda. Também
guardamos sempre algum tempo de brincadeira
e convivência.
Nunca treino sozinha, se não é com a equipa
é com a Anália. Os meus treinadores, o
Ricardo e o Tó Zé apoiam-me sempre,
acreditam em mim e nas minhas
possibilidades, e isso é muito bom.
Por fim, tenho um dos mais importantes
apoios, o dos meus Pais. É bom saber que
estão sempre presentes naqueles momentos em
que o bichinho morde cá dentro antes do tiro
de partida, e que estão ali, mesmo ao pé da
meta a torcer por mim.
AAA - A Solange tal como muitos atletas é
estudante. Como concilia estas duas
“profissões”? Que conselho daria aos atletas
que se encontram na mesma situação e muitas
vezes divididos no caminho a seguir?
SJ: Tenho que fazer horários de estudo,
aproveito ao máximo as horas vagas, isto
para ter algum tempo livre também. Assim
concilio as situações, mas admito que é
complicado…
Como os meus pais muitas vezes me dizem,
tenho que pensar no meu futuro, algo pode
correr mal no Atletismo, uma lesão mais
grave, etc…e o Atletismo não dura para
sempre. O importante é ser-mos capazes de
fazer as duas coisas: correr e estudar ou
trabalhar.
Os jovens, normalmente, agem de forma
impulsiva não pensando nas consequências,
mas devemos pensar que além de bons atletas
no futuro temos que ser bons profissionais. |
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AAA - A
Acredita que a crise de valores de que se
fala no Meio-Fundo Português, deve-se à
falta de oportunidade para os mais jovens?
SJ: Penso que não, a crise de valores acho
que passa mais pelo facto de o Atletismo não
ser muito divulgado, pois normalmente os
mais jovens escolhem como modalidade o
Futebol, pois aqui existe uma quantidade
francamente exagerada de apoios. Outros, não
são ou não se sentem incentivados para a
prática de desporto, mas isto são problemas
que já vêm de casa… Cada vez mais
verificamos que os mais jovens não têm
aquele espírito de sacrifício, pensam que
correr cansa por isso mais vale ficar horas
a fio sentados a ver programas inúteis de TV
ou a jogar computador. Mas como referi
anteriormente, os mais velhos muitas vezes
não incentivam.
Por outro lado, ainda me lembro de há uns
anos atrás, quando ainda era benjamim, haver
muitas provas de 600 M e 800 M, assim como
há provas de estrada para os restantes
escalões, o que é uma pena. Os seniores são
importantes, mas os mais jovens serão
certamente os nossos campeões do amanhã e
temos que os valorizar por isso.
AAA - Que conselhos daria aos mais jovens
que por muitas vezes optam pelas vias de
flagelo da sociedade em que vivemos e que
poderiam optar pelo Desporto?
SJ: Acredito que grande percentagem dos
jovens optam pelas vias de flagelo porque
pensam que assim serão melhor aceites pela
nossa sociedade, o que é uma visão
totalmente errada. Outros porque talvez
julguem que seja um método de refugio para
os seus problemas… O meu conselho é simples,
tudo isto é errado, não é com drogas e
coisas do género que os problemas se vão
resolver, pelo contrário, será mais um
ainda. Eu sou jovem, como qualquer outro,
também tenho os meus problemas e não
enverguei por esses caminhos. Faço do
desporto o meu local de refúgio, onde
descarrego todas as minhas “energias
negativas” enquanto treino, assim de forma
saudável abordo as situações. Junta-se o
útil ao agradável, isto já para não falar na
quantidade de amigos que podemos fazer e na
quantidade de pessoas que podemos conhecer
pelo país fora…
AAA - Quais são os seus ídolos no Atletismo?
SJ: Os meus ídolos são o Rui Silva, Francis Obikwelu e Anália Rosa. O meu ídolo
estrangeiro é kenenisa Bekele, mas os
portugueses são para mim os favoritos.
AAA - Para terminarmos a nossa breve, mas
importante, entrevista, gostaríamos que nos
falasse do futuro. Quais as suas aspirações
e o papel do atletismo no seu amanhã.
SJ: O Atletismo desde cedo desempenhou um
papel importante para mim, agora mais do que
nunca, pois a ida aos Campeonatos da Europa
fez-me olhar para tudo isto de forma
diferente. A partir daí comecei a encarar o
Atletismo de forma muito mais séria, e
consequentemente a paixão pelo desporto vai
aumentando.
Do futuro, não posso falar muito, pois estou
a trabalhar neste momento, como todos os
atletas, para os crosses, mas é uma grande
incógnita e além disso prefiro viver o
Atletismo um dia de cada vez com os pés bem
assentes na terra. As minhas aspirações… já
é um pouco mais complicado pensar nelas…na
época passada foi o Europeu, se tudo correr
bem, e se me mantiver com esta força dentro
de mim, apesar de ser ainda um pouco cedo
para falar, quem sabe não tentarei um lugar
nos 3.00 M/Obstáculos no Mundial…
À Solange Jesus agradecemos a
disponibilidade de partilha do seu/nosso
Atletismo, desejando-lhe muitas vitórias nos
lugares cimeiros do Atletismo Nacional e
Internacional. |
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© 2005 Joana
Nunes |
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